Sunday, August 09, 2009

Pai

-A paternidade está, pois ligada ao fato de falar -

-Não há pai senão com a palavra, a partir das palavras. Sem palavra, haveria genitores, grandes machos copuladores, mas ninguém poderia dizer-se “pai”-

A função paterna é a de oferecer os recursos necessários à provisão dos filhos, com afeto e maior proximidade entrepai e filho. Seu papel é o de facilitador e condutor do desenvolvimento do filho, de maneira a permitir amenizar os percalços do mal estar da civilização que, passados os 150 anos do nascimento de Freud, abrem em nossa cultura, outras formas de mal-estar: a delinqüência, a toxicomania, a indiferença, o terrorismo e a massificação do singular no seio da cultura.
O pai representa a possibilidade do equilíbrio regulador da capacidade da criança investir no mundo real. Seu contorno se dá no processo de desenvolvimento, de acordo com a etapa da infância. Freud (1914) explica que para a criança, num primeiro momento, o próprio Deus é apenas uma exaltação da imagem do pai. Cedo, porém, o pai é identificado como o perturbador máximo da vida instintiva dela: torna-se um modelo a ser imitado, mas também a ser eliminado, para tomar o seu lugar. “É nessa existência concomitante de sentimentos contrários que reside o caráter essencial daquilo que chamamos de ambivalência emocional.” (FREUD, 1914:249).

apenas no século XX surge a imagem do pai-educador, encarnada à família nuclear, urbana e burguesa. Essa imagem desenvolve-se, com o que se denomina “o novo pai”: aquele que conduz a criança, aquele a quem a criança chama de papai.

O pai genitor da criança seria um fundamento suficiente para se manter uma definição irredutível do ser-pai. “No entanto, pretender fundar a paternidade sobre a verdade biológica, é fazer evidenciar ainda sua fragilidade” (JULIEN, 1997:45). Dois tipos de discursos sustentaram o novo direito da mulher sobre a criança. Um é que durante muito tempo, a paternidade era presumida: legalmente, o pai era o marido da mãe. Desde a lei francesa de 1792, isso não é mais assim. A lei não assegura mais para o homem amado pela mãe, a condição de genitor. E o outro é que a procriação – a inseminação artificial - permite à mulher ter um filho sem o encontro sexual com o genitor. Os avanços tecnológicos provocam esse tropeço para a paternidade. A paternidade biológica torna-se irrisória.

Para THIS (1987), a palavra “Pai”, o representa, o evoca, o chama. Não há pai senão com a palavra, a partir das palavras. Sem palavra, haveria genitores, grandes machos copuladores, mas ninguém poderia dizer-se “pai”, “filho”. A paternidade está, pois ligada ao fato de falar . Por isso dizer-se pai, uma questão da cultura e, portanto, haver a necessidade de se legitimar no exercício cotidiano da relação pai e filho. Acreditamos ainda que é no âmago dos sentimentos paternos de cada homem, e na teia de relações que eles estabelecem com o complexo-pai (o pai real ou imaginário) que é possível a construção e reconstrução da subjetividade de pai.
Ao nível simbólico é o pai quem deve romper o vínculo simbiótico e necessário inicial mãe-filho. A mãe, pelo discurso, vai inconscientemente autorizar (ou não), este pai como um terceiro na relação, que será, a partir daí, o representante da Lei contra o incesto. A criança, então, ingressará na cultura e na linguagem. “Sob a ótica do filho, é um pai opositor, um outro desconhecido que incomoda, inquieta e ameaça o vínculo com esta mãe. Na dimensão psicológica, desenha-se aí o primeiro duelo pela hegemonia do poder” (NOLASCO,1993:83). “O pai está ali para permitir a passagem e o acesso ao mundo simbólico: pôr junto, trinificar. Não é um ou outro, é ao mesmo tempo um e outro. Só a dimensão simbólica permite à criança não pertencer exclusivamente a um ou a outro” (THIS, 1987:176).

A função paterna (que pode ser exercida por outra pessoa, que não o pai biológico), salva a criança e a mãe de patologias mais sérias. “A frustração da pulsão do desejo é referida pela criança ao terceiro objeto que lhe é designado normalmente como obstáculo para sua satisfação: a saber, ao progenitor do mesmo sexo” (LACAN, 1990:42). O complexo de castração, decorrente do Complexo de Édipo, é estabelecido pelo pai que proíbe, frustra, para o bem da criança que aprenderá a ouvir o não e conhecerá limites. A partir de então, ela fará identificações que a levarão a viver sua própria vida, a identificar-se sexualmente e a buscar seus ideais. “Gravita uma oposição entre o filho homem e seu pai, um duelo psíquico que tem expressão nas características violentas e guerreiras que os homens assumiram tão bem” (NOLASCO, 1993:83).
Edna Galvão - Artigo: Relação pai x filho: pilar do processo civilizatório. In Periódico Actas Freudianas, Revista da Sociedade de Estudos psicanalíticos de Juiz de Fora, v.III, 2007. 155p.; 26 x18 cm. ISSN 1809-3272.

4 comments:

Eliana f.v. - Li Andorinha - said...

Grata pela boa leitura Vi
Interessante esse texto

mas uma dúvida Vi...o mesmo
ocorre em relação a filha?

beijinhos da Li com carinho
e admiração

virgínia vicamf além mar said...

Li com as filhas é diferente , mas tbém a figura do pai é imprescindível para o corte com a mãe e o pai passa a ser objeto de desejo, diferenciação sexual, etc...
se interessar envio um texto, bjs
agradecidos pela leitura e visita

marcia said...

minha querida, que prazer eu sinto quando me visitas. Tenho verdadeira admiraçao pela beleza que escreve.
Tão doce é suas palavras comigo, que me emociono. De verdade foi dia de saudade, mas uma saudade boa, terna, daquelas que os olhos enchem d'agua, porém junto, acompanha um sorriso.
Obrigada pela força e carinho.
sua postagem como sempre perfeita! sou uma mera aprendiz que está conhecendo uma mestra a qual presto toda minha reverencias!
beijo e fique com Deus.

Eliana f.v. - Li Andorinha - said...

Tua companhia é um afago para minha alma Vi querida!

Me interessa sim Vi...se não for te atrapalhar...eu quero sim que me envie o texto
e já agradeço feliz por teu compartilhar tão precioso poeta Linda!!!

beijinhos agradecidos da Li mais carinho admirado